Entrevistas com a Autora

  • Jornal O GLOBO, Conte-me Algo que Não Sei

https://oglobo.globo.com/sociedade/conte-algo-que-nao-sei/katia-bandeira-de-mello-gerlach-escritora-literatura-se-faz-de-enigmas-varios-sem-respostas-21377422

  • Trilha de Letras – TV Brasil

https://youtu.be/Qb0PS9hLNn8?t=1096

Língua Viva, programa com Raphael Montes e Katy Navarro, entrevistados Sérgio Rodrigues, Kátia Gerlach e Sergio Nogueira

  • Entrevista concedida a Anna Camanducaia (Globo Internacional)

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O “Globo Notícia Américas” exibiu, no domingo, 04, uma entrevista com as escritoras Katia Bandeira de Mello-Gerlach e Lucrécia Zappi. A dupla falou sobre literatura e como a origem brasileira influencia em seus trabalhos.

http://globointernacional.globo.com/Americas/Paginas/Globo-Not%C3%ADcia-Américas-tem-papo-sobre-literatura.aspx

 


http://ambrosia.com.br/entrevistas/entrevista-com-autora-katia-gerlach/

por Fernando Andrade

Kátia Gerlach veio ao Rio em inicio de Dezembro para lancar seu 4 livro de contos, o segundo pela editora Oito e Meio “Jogos (Ben)ditos e Folias (mal)ditas”. O Lançamento foi na Timbre onde a autora autografou seu livro. Na entrevista, falamos sobre ficção e sobre seu livro de contos.

Ambrosia: Seu livro parece aqueles puzzles de armar que Cortazar fazia em Jogos de Amarelinha. São tantas as portas abertas entre os contos, com personagens indo e vindo entrando e saindo. Foi difícil armar estas narrativas com sabor de jogo?

Kátia Gerlach: Em primeiro lugar, agradeço a vocês pelo convite para esta entrevista, é uma alegria para mim. Obrigada.

Agora, vamos lá!

Ao pensar o leitor como um sujeito ativo, um detetive disposto a navegar em novos territórios, construo o texto em camadas, o que requer tempo de maturação, diversão (sim, escrever é difícil e divertido simultaneamente) e paciência. Assim como quando se pinta um quadro, o artista joga as tintas na tela e elabora em cima das suas expressões e, depois de tudo pronto, ainda é possível jogar uma camada de tinta negra ou um véu suave, rico em nuances. Eis a essência da arte: elaborar a estética sobre o conteúdo, guiando-se pelo mistério que cede a graça.

Cortazar é um escritor admirável e o meu livro Colisões Bestiais (Particula)res pela Editora Oito e Meio, um bestiário nos moldes de seus predecessores, homenageia-o mas não só. Ao falarmos em portas, entro e saio das que Borges me abre e fecha. Já Bolaño elevou a literatura latino-americana a um novo patamar e livrou-nos do rótulo cansativo do realismo mágico. A minha escrita reage a limites e permanece em constante diálogo com vários escritores de origem ibero-americana, russa e francesa, dentre outros. Há, na proposta, um respeito pelo leitor convidado a ser livre dentro do texto, capaz de escolher os seus próprios caminhos. Esta liberdade assusta e gratifica. Os livros podem ser lidos como um romance, um apanhado de contos ou fragmentos soltos como a poesia, de uma vez ou de tempos em tempos. Ouço de leitores que desfrutam desta versatilidade e me contam ir e voltar aos livros, no que vivenciam os personagens.

Queria que você falasse de um humor que eu saberia definir não parece uma ironia que perpassa cada conto. Talvez um humor surreal, se existe tal espécie. E como você pensa, em cada período de texto, este humor que me parece referencial?

KG: Quanto ao humor, o que o leitor encontra nas páginas é o meu próprio humor. Pelo Bem ou pelo Mal, sou uma pessoa que enxerga a vida com humor, o que não deixa de significar um elevado grau de sofrimento. Alegria e tristeza são tão próximas que se ferem com frequência, o riso se intromete no caminho. Há uma poesia anárquica dentro de cada um de nós, de vez em quando, ela tomba no papel. Talvez você chame isso de “humor surreal”?

Queria que você me falasse de que maneira a literatura norte americana te afeta ao escrever. Você estaria mais próxima da corrente pós-moderna, como a paródia auto referencia, o inter texto?
KG: Apesar de morar nos Estados Unidos há quase vinte anos e apreciar escritores americanos contemporâneos como David Forster Wallace, Lucia Berlin, Philip Roth, Lydia Davis e Anne Carson, por exemplo, não posso dizer que exerçam uma forte influência sobre o meu trabalho com exceção da Anne Carson, nascida no Canadá. Admiro a obra literária da Anne Carson por não se ater a gêneros definidos e criar a partir de leituras clássicas. É uma escritora com vasto conhecimento, o que enriquece as suas experimentações, assim como o fez a grande Maria Gabriela Llansol no campo da nossa língua portuguesa. Quanto a um novo e atual pós-modernismo, não me arrisco a passar por esta porta. Mantenho-me na vanguarda de Breton, Mario de Andrade, Picabia, Jarry, Peret e tantos outros. O início do século XX inovou com tamanha força que até agora não sinto que haja nada igual, com peso equivalente. Apesar da qualidade da produção artística contemporânea, constata-se um enfraquecimento devido à mercantilização da arte em geral.

Os outros livros lidos por você parecem que estabelecem uma conexão com personagens e enredos, que você cria, como é esta costura entre leitora e autora?
KG: Os livros, seus personagens, autores e leitores pertencem a um mundo ligado pela física quântica. Não há como se desvencilhar deste fenômeno. Divulgar estas conexões consiste numa opção que o artista possui, faz se quiser. Há casos (alguns lamentáveis) em que escritores fazem uso de obras alheias e escondem isso, na grande ilusão da reinvenção da roda. Uma roda que gera vantagens comerciais.

Quais são suas influências literárias quando escreve? Quem são os autores que te motivam a escrever e por quê?
KG: Não posso dizer que outros autores me motivam a escrever. A necessidade da escrita é orgânica, a mão que desenha é a mão que escreve, acaricia, cura, costura, alimenta, leva o copo à boca para matar a sede e se une a outra mão para rezar, amar, bater palmas e sentir o impacto do movimento. Quando olho para a minha mão direita, fico a pensar no que seria de mim sem ela. Num koan japonês, o mestre determina ao discípulo que corte a sua mão com uma espada, ao que o discípulo atreve-se a responder que é impossível amputar a mão porque ela se dissipa no universo. Quero acreditar que isto se passou no caso do grande escritor argentino Ricardo Piglia, que perdeu o controle das mãos pela doença mas perseverou com a escrita sob o comando dos olhos. Mãos que não param, é o que almejamos. Apesar da escrita ser tão precária quanto a realidade no tocante a incorporar sonhos, dores, fracassos, paixões e afetos, há nela uma tentativa e, aquele que não busca alcançar, desiste da montanha antes mesmo de colocar um pé na frente do outro. Talvez o escritor seja apenas um pobre diabo a ousar dar repetidos primeiros passos…


2 mil toques
O DIA A DIA DOS ESCRITORES E SUAS ROTINAS DE PRODUÇÃO
SOBRE
Kátia Bandeira de Mello-Gerlach

Quando termino uma história, tenho diante de mim a máquina acabada, um sonho que recuou no tempo, impressões com centro de gravidade. Auxiliada pelo Deus dos Pequenos Cemitérios, ressuscito um a um personagens que se calam nas lacunas do vazio que é a vida. Peregrino os olhos pelos jornais, busco notícias sensacionais, quem me aconselhou foi o Carrero, meu admirável amigo e mestre; descubro que os nova-iorquinos estão vestidos de super-heróis, calho de encontrar os Quatro Fantásticos no vagão do metrô. Subo a escadaria nua e suja que dá para o escritório, onde confrontarei os Dias da Criação; suspiro profundo, salvei-me dos perigos da cidadela encravada no asfalto e nos arranha-céus e o céu de tão arranhado sangra um líquido branco e tóxico, um pus, é a purulência humana a se despejar sobre mim e sobre as crianças também, a inspirar-nos. Perco o ar, os pulmões não se saciam com este oxigênio enegrecido a diesel. A sentença judicial de que tudo acabará foi decretada. Primeiro, a extinção dos livros elétricos, depois a sede e os flancos pararão de vibrar. Um bocejo. Eis-me no topo do edifício marrom que abriga noutros andares uma escola para bartenders e um bordel russo disfarçado de agência para modelos. O mundo é estrepitoso para todos nós; nós, os escritores, os piores farsantes, os fantasmas com um único corpo, o coração; em muito superamos o cafetão, o chefe do bar que embriaga os alcoólatras, parasitamos nas margens, damos toques e toques no teclado como se uma redoma nos protegesse de todos os pecados e enfermidades. Inocentados pelo papel, ah isso seria bom na hora final, na extrema unção, na publicação das palavras que nada mais é do que o caixão entreaberto de onde emana a gargalhada sinistra do orangotango da Rua Morgue.

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Kátia Bandeira de Mello-Gerlach é jurista e escritora brasileira radicada em Nova Iorque. Lê e escreve sob a disciplina de um lavrador. Faz parte da Universidad Desconocida do Brooklyn e é membro do Paragraph (www.paragraphny.com), onde possui um cubículo cercado por divisórias cinzentas e aveludadas. Em dias de sorte, consegue sentar-se perto de uma janela e captar raios de sol que, doutro modo, se perderiam. As sirenes lhe soam musicais. Arrisca-se a adorar a solidão e o Dicionário Analógico da Língua Portuguesa. Sim, a escritora tem dois filhos maravilhosos que a resgatam diariamente da obsessão de escriba. Amém.

https://2miltoques.com/2016/10/10/katia-bandeira-de-mello-gerlach/