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Revista Centro Cultural Raimundo Carrero

INCLEMÊNCIA
Gerda, estirada sobre a cama mortífera, aspirava que a mais brutal das coisas acontecesse. Hans atravessaria a porta do quarto, mancando com a perna esquer-da, os sapatos ortopédicos falto-sos, e esperaria que ela exigisse dele. Cabia a ela exigir daquele homem aleijado há uns trinta e cinco anos. Instantes antes, Gerda empertigara o corpo e desafiara a mulher encontrada no ponto central do espelho como alvo de artilharia. Não emagrecia nem engordava porque o corpo atingira o limite máximo. Era a imagem dela, Gerda, a dona da mala que não fora para lugar algum e permanecia enfiada debaixo da cama. Os per-fumes desciam dos céus para to-dos, a cidade nauseabunda quase não reagiria aos corpos de Gerda e Hans enquanto se dissipasse a fé na distinção entre claridade e o eco da escuridão.

Gerda contratara Clemens, o caubói haitiano, para dar fim a tudo aquilo. Não suportava o uso compulsivo de luvas por Hans. Ao menos uma vez por semana, Hans vestia as luvas, pegava a corda do barco e ia para o jardim nos fundos da casa. Preparava o nó, instalava um banquinho debaixo do galho forte e fraco e posicionava-se. Vinham-lhe na cabeça os partos e cesarianas, os gritos das mulheres, as crianças mais incapazes do que insetos ao abandonarem a pupa, puxava-os pelos pés, segurava-os como lebres e assombrava-se com a vermelhidão dos nascituros e arrependia-se de haver cooperado com o Demiurgo; a sua intenção era adiar os nascimentos para que os rebentos viessem mortos porém ele acudia as mulheres sem saber porque.

Clemens, o caubói, apresentara à Gerda a munição de balas enferrujadas e um revólver pifado de gatilho tão frouxo quanto o cinto da calça daquele forasteiro. Quando fora que um homem e uma mulher em momento de ousada leviandade trouxeram Clemens a existir? O rosto de Clemens antes de ser trazido ao mundo teria sido uma incógnita. Os seus pais ouviram os anjos a exaltarem as virtudes de Lucifer. O sangue dos olhos injetados de Clemens espalhava medo em um raio de dez metros ao seu redor. Clemens, o mágico com mãos de ouro em contraste com os pescadores de olhos de vidro ou os operários de calçadas a cultivarem pedras dentro de seus órgãos íntimos ou os aleijados e suas botas ortopédicas.

Clemens ganhava a vida assim: vendedor ambulante de mortes. Ou, ao menos, proponente. Percorria a cidade de Berlim em uma motocicleta, batia de porta em porta e perguntava se naquele endereço alguém se interessava por matar um ente. Quase sempre a primeira resposta que lhe davam era negativa, salvo nos casos em que se abrigasse pacientes terminais quando os parentes apressavam-se em aceitar a oferta a qualquer preço. Nas outras circunstâncias, os moradores reagiam com um “Wieso?” mas em poucos dias o telefone de Clemens brandia e o freguês marcava reunião para discutir detalhes da operação em um ponto secreto da cidade. Clemens oferecia o pacote completo, desde o assassinato até a eliminação do corpo e de provas. Recebia o pagamento adiantado e irrevogável e contava com o arrependimento do pedinte no último minuto de modo que colecionava apenas um pequeno número de mortes na carteira. À laia de pegar um coral do fundo do mar sem molhar a manga da camisa.

A mãe de Clemens, entre um e outro dilúvio, segurara as mãos de ouro do menino, sem as levar até a boca para beijar. “Estas tuas mãos são para fazer algo importante… por enquanto, cavam as covas mas quero acreditar em algo maior, fora desta ilha…” No derradeiro terremoto, o teto da igreja tombou sobre a família de Clemens e o tijolo que bateu na cabeça o fez virar caubói com a indumentária das botas de couro de cobra, facão na cintura e chapéu de John Wayne. Clemens escondeu-se no porão de um navio de cruzeiro e saiu do outro lado da terra, que se tornara linear para ele: a embarcação avançara pelo mar em linha reta, dissipava-se a fé curvilínea. Estranhos o levaram até Berlim, Clemens havendo sido surpreendido pela rede clandestina de agentes que empurra o êxodo de um reino para outro.

Quando bateu na porta de Gerda, encontrou-a de roupão felpudo com o ombro esquerdo apoiado no umbral da porta. Era um dia nublado, de luz branca e Clemens usava seus óculos ray-ban. Nem por isso, Gerda assustou-se. Uma qualidade rara, pensou Clemens. Ela não se espanta com um homem negro batendo à sua porta no princípio da tarde e não teme que os meus olhos estejam escondidos. Clemens tirou o cartão de visitas do bolso, Clemens Énard, matador profissional, Handy Nummer 49 1 888 000. O título de matador profissional era tão inconcebível que Clemens o usava livremente. Aliás, Clemens relevava a quem quer que fosse sobre o seu trabalho e ninguém, sequer a polícia, confiava nas declarações estrambóticas daquele caubói de Port-au-Prince.

Gerda pegou o cartãozinho e amassou-o com os dedos rechonchudos. “Duvido que você consiga dar cabo do meu marido”, arguiu. “Ele próprio ameaça suicidar-se no jardim e os esquilos se riem dele.” Quando acordo no dia seguinte, encontro-o vivo, ao meu lado na cama, roncando sem cerimônia e com a mão enfiada na vergonha, a mesma mão que ele usa como ginecologista para “examinar as mulheres.” Clemens removeu os óculos escuros da face, a branquidão celestial o confundia mas ele precisava encarar esta Frau. “Se me permite, posso entrar?” Gerda consentiu, não parecia inibir-se diante dele por vestir um roupão sobre a camisola de dormir com os seios soltos por debaixo dos panos e recebe-lo na intimidade da casa. Ao andar para os fundos da sala, Clemens ouviu a respiração dificultosa da mulher que agora se voltava para uma enorme máquina da qual tirava oxigênio em um tubo para aliviar a asma. De cada bolso do roupão, sobressaía um spray para asmáticos.

“O senhor está há muito tempo nesse país?”, perguntou Gerda ao puxar um cigarro que logo acenderia com o isqueiro guardado num dos bolsos do roupão. O maço de cigarros mantinha-se aberto, sobre uma mesinha lateral, junto a um abat-jour apagado. Clemens sentiu-se tentado, nunca tragara nicotina, tinha curiosidade de sentir aquele cheiro nas pontas dos dedos mas Gerda não lhe ofereceu nada enquanto continuava a falar com ele por um lado da boca apenas, o que dificultava a compreensão do idioma sobre o qual Clemens flutuava. “Ich bin neulich gekommen”, respondeu com timidez. Um assassino deve ser recatado, excessivamente discreto, ou melhor, um assassino deve ser quase tão transparente quanto o vento porque o vento mata sem piedade. Gerda ajeitou os seios com as mãos, encaixou os chinelos nos pés e aproximou-se de Clemens para soprar a fumaça no rosto dele. Depois disso, deu uns dez passos para trás, sempre encarando Clemens, não tirava os olhos dele até que as suas costas esbarraram na máquina de oxigênio com formato de piano e ela quase tropeçou em si.

“Sabe por que não saio de casa, não viajo, não faço nada fora dessa casa? É por causa desta máquina aqui! Tenho respiração artificial. Sem estas bombas de bolso e este balão de oxigênio não passo dos próximos quinze minutos. No meu quarto, ao lado da cama, um outro balão de oxigênio me enche os pulmões durante a noite enquanto o Hans arrisca os suicídios. É que ele quer ser enterrado no Grunewald Friedhof, o antigo cemitério exclusivo para suicidas de sucesso.”

Clemens sabia do que estava falando: “Os suicídios são difíceis, é mais simples contratar outras mãos, mãos de ouro que façam por você, a menos que o sujeito beba cicuta mas os suicidas são covardes neste sentido, é raro que se envenenem, preferem o estrondo de um tiro ou a corda no pescoço por gostarem da idéia da bala que se pode perder ou da corda que não alcança a goela… vivem pela pequena esperança da sobrevivência.” Gerda assentiu, Hans se acovardava, era a verdade nua e crua.

“Hans já tentou se matar nessa semana e fracassou. Quarta-feira que vem, ele deve se arriscar de novo, lá pelas duas da madrugada… Eu estarei dormindo mas o senhor pode vir e dar-lhe um tiro na cabeça, com cuidado para não ser na corda, o que o salvaria mais uma vez! Pago o que for necessário.” Gerda terminara o cigarro e alegrava-se com uma expansiva “Schadenfreude” no peito ao pensar nas pacientes que escusariam de sentir a mão do marido nas entranhas, nas crianças que deixariam de nascer, nas manhãs tranquilas em que acordaria sozinha na cama onde tanto exigira de Hans. Clemens desconfiava de uma cilada. Tudo parecia fácil demais. A mulher não exibia nenhum ressentimento ou dúvida.

Com a promessa de retornar e um cheque guardado, Clemens se despediu de Gerda às quatro da tarde daquele dia branco purulento. O caubói rondou a cidade em sua moto sem conseguir parar em lugar algum. Ajudar um suicida o arrepiava e Gerda também, com seus cabelos ruivos desalinhados, as sobrancelhas desenhadas por um lápis marrom, o nariz vermelho pelos tubos de ar. As suas mãos de ouro seguravam o volante da motocicleta com força, Clemens vislumbrava uma irradiação universal que o salvasse da perversidade que Gerda lhe oferecia ao passar a limpo a chance do crime perfeito. Entretanto, já tendo sido pago, Clemens pos-se em tocaia naquela mesma noite e esperou que Hans voltasse à casa. Com o revólver enferrujado deu-lhe um tiro na nuca e rasgou um postigo no horizonte noturno do portão de Brandenburgo por onde se via um exército de soldados dispostos a matar.
Texto: Kátia Gerlach


 

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Navio de papelão em intempérie tropical

De Kátia Bandeira de Mello Gerlach *

Um homem de barba bíblica, filamentos verde musgo, longos fios de couve. Os fios de Wassily estão presos às raízes plantadas no crânio do imbecil. Sim, todo o homem que, como ele, recusa-se a aparar a própria barba e a cabeleira, os seus cabos de ligação com as nuvens, é um perfeito imbecil. Ademais, bebe sem derramar no copo e entorna pelo esôfago quarenta por cento de álcool. Queixa-se do canto de sereia no estômago azeitado, enjoo, turbulência. As ruas são turbulentas como os oceanos, onde quase não se encontra um ombro sobre o qual apoiar o peso da cabeça e nivelar a plataforma.

O velho Wassily possui um apartamento no casarão de tijolos próximo à estação de trem e, entre as quatro paredes cremosas, guarda caixas de papelão desfeitas, pois algum dia planeja construir um navio que o carregue pelas ruas oceânicas. Afinal, cansou-se de nadar. O almirante dará o apito para zarpar viagem em sangue seco pelo hemisfério. És um louco, acende-lhe a cabeça de um fósforo o fogo da ideia. Mas o velho sabe que viaja sobre a linha branca da sanidade mental, uma linha de contrastes radiológicos, uma linha que vira de um lado para o outro a depender do peso das pernas de quem faz de si tábua da própria salvação — e, nesta ciência criativa, ele não se deixa subestimar.

Senta-se no banco da Praça do Tempo, ao sul. Admira os jogadores de xadrez, damas e gamão. Tantos os homens e mulheres jogadores que o cercam: ele não, recusa-se a mover peças de brinquedo sobre o tabuleiro de fortuna em quadrados foscos ou não. Ele foi irmão, soldado, consorte, e agora exige reconhecimento como construtor de navio de recicláveis; que me chamem de Noé, mesmo os que desacreditam na arca de papelão a enfrentar o dilúvio que se estampa na página oficial do aquecimento dos céus, do esfriamento das mãos, da tormenta das almas destemperadas. O sustento de um homem está nas águas do aquário uterino da terra, do tombo dos sentimentos pelas lágrimas, do labirinto dos pensamentos líquidos que circulam na cabeça, num cérebro em chamas.

Nem sempre as pernas do velho respondem ao pedido de dar passos em frente. Wassily estagnado sobre o ponto geográfico neurológico, algo em falso na química dos líquidos que informam o movimento. A bengala inerte devido à desobediência cerebral. Enfrentar a película da estática foi como o desvirginar da mulher por quem se apaixonara numa sombra remota do roldão de memórias. Ele chorou quando rompeu o corpo dela. Depois se viu sem tempo para as lágrimas e viveu até que Edith morresse intoxicada da mastigação de papel. Os senhores doutores médicos de plantão acreditaram-na leprosa? Por que cortaram os seios de Edith? E os seus braços e pernas? Amputaram um membro de cada vez e na pele que sobrava as nódoas dos líquidos densos e intravenosos. Reconheci no sono dela o sussurro da despedida e sou o Wassily que perdeu um filho, enviuvou e sobrevive devorando folhas umedecidas de periódicos, e saquinhos de castanhas na brasa.

No outono ou na primavera, o velho da barba bíblica de fios esverdeados como folhas de couve finas e leves alimenta-se das castanhas quentinhas que lhe vende o ambulante Juan Romero, outro homem, outra história de vida, outros desencantos; ele conta: ô, Wassily, a minha mulher se foi vivinha como truta no lago para as mãos de outro e abandonou-me com os filhos e a carrocinha de castanhas; no bilhete de despedida escrito sobre um papel rasgado de padaria: “Juan Romero, o seu olor à castanhas queimadas me é insuportável, irei viver com o pipoqueiro de uma praça mais ao norte da tua”. Quando a meteorologia anuncia intempéries, Wassily não falha em convidar o Juan Romero para que se abrigue no navio de papelão em vias de existir, mas o ancião reparou que o companheiro das castanhas não lhe dá fé e confiança e sorri com o rosto mascarado pelo vapor da panela aquecida que ele sacoleja feroz a evitar perder as alegorias que enfeitam a sua vida.

A reprodução descontrolada de minotauros na cidade precisava ser contida. O Carnaval de 2666 fora noticiado como uma catástrofe ecológica, não teria sido uma invasão circense. São três as posições de um homem perante o perigo: de pé, sentado ou deitado na horizontal.* Wassily pode estar de braços cruzados numa destas três posturas possíveis. Ou deixar que os braços caiam ao lado do corpo. Ou encontrar forças para suspender os braços perpendicularmente e reagir.

Wassily consulta-se com o médico que emite um prontuário para as aflições. O doutor Benedito destrói castelos e arcas: Wassily, o que lhe deu na cabeça para acreditar-se o segundo Noé? Nem Jesus Cristo nasce e renasce sucessivamente. A sua doença é capilar. Corte a cabeleira espessa, raspe a barba de fios de couve e irá descobrir um novo homem; e mastigue papelão ao invés de jornais noticiosos. E Wassily retruca: mas o que devo fazer se o primeiro passo anular a força de todos os outros?

Com a receita médica no bolso da camisa, Wassily sentiu um medo tremendo de executar as ordens do especialista, um ignorante em vestígios do dilúvio. Um homem de hábitos seculares não descobre o rosto como quem afasta as cortinas de uma janela ou as pernas de uma mulher. Como a bengala recusasse a ir em frente, Wassily recuou e a partir daquele ponto vislumbrou um antipoema que seria viver ao revés. Oxalá em cem anos regressivos a mãe o parisse. Mas que nada, mas quanta coisa estapafúrdia, se a vida não fazia sentido, Juan Romero, seja quantas mulheres forem desvirginadas, quantos homens queixarem-se entre lágrimas ou quantas castanhas queimarem na tua brasa, hombre de Dios!

*

O conto acima integra o livro Colisões bestiais (particula)res [editora Oito e meio, 47 págs.], de Kátia Bandeira de Mello Gerlach.

 


Jornal Sidarta, da saudosa escritora Sonia Coutinho

http://jornalsidarta.blogspot.com/2011/10/um-conto-de-katia-gerlach.html
SEXTA-FEIRA, 21 DE OUTUBRO DE 2011

UM CONTO DE KATIA GERLACH

PELETERIA

Darlene desenterra o dia das ruas e as mãos dos bolsos que é para acudir os cabelos. A cabeleira crespa alisada para trás; os fios brilhosos, afixou-os com dedadas de gel e, entrementes, tombam sobre o semblante; o arco não é auréola, Santa Darlene-creio-em-deus-pai. Passos ligeiros e baforadas curtas, os de trás respiram o ar convulsivo da Darlene e basta cravar o olhar nela para recuarem. Há pouco saíra da tourada. Tequila on the rocks: noite toda, a unha postiça do indicador girando o gelo na circunferência do copo servido pelo bartender com quem dividia as comissões. Ah, Darlene, em cujos cartões postais para a família, você conta ser dançarina de sapateado na Broadway, se a fosforescência do mundo acabar, onde você vai estar? As amigas não lhe vão servir para nada, a Edileuza, a Creuza, a Marlene e todas as outras, astoria queens, simulam lealdade, enquanto se arrepiam de invídia verdejante, colocam no palco a tragédia grega de Gotham.

A voz entubada da Edileuza passa despercebida pelos espectadores ébrios e ela prolonga os intervalos para esconder a tosse de cachorro, à medida que pede mais cigarros à Darlene porque cantar paga menos do que dançar, as gorjetas variam e a Edileuza não enxerga justiça nisso, afinal a Darlene não vai além de um strip parcial por ser católica praticante. A Creuza e a Marlene acompanham no coro de fundo e depois da apresentação, o quarteto se arma em muralha caso algum valentão resolva tostar guimbas nas pernas grossas de uma delas, sentadas a mesa. Desequilibram-se nas cadeiras quebradiças do barril noturno s.a., o rapaz do bar teima em piscar maliciosamente para aquelas damas alçadas pelos anos, via-se logo a malaise do Francisco, bezerro carente de mãe, uma delas bem que serviria para acolhê-lo nos seios enganosamente maternais.

Darlene abotoa e desabotoa a camisa de tachinhas prateadas ao seguir pela calçada que se manifesta. O estômago mareado, ondas ondulantes duvidosas, o barco em jornada sem bússola, o que a roupa justa não contém é a carne morena que esbanja e de que Waldecy gostava até o domingo quando vomitou palavrão e deu um casaco de chinchilas para a Edileuza. Puro despeito de um homem de mãos tenras, dedos de veludo, uns mimos e umas manias que a Darlene aguentara por causa da linhagem dele. Raro um daqueles dando sopa nas margens cinzentas do East River, cordão de ouro com crucifixo, família de nível, educado em escola particular, cheiroso de perfume francês, superando as ilusões de asfalto da Darlene. No fundinho da anima, a Darlene desconfiava que o Waldecy a visse como criada de cama e mesa, sem que esta ciência inibisse o esforço dela para agradá-lo. Trocava roupas de cama e toalhas de banho dia sim, dia não, passava lençóis a ferro, cuidava das roupas íntimas do Waldecy para que não encardissem, quarar inviável no porão sem área de serviço, mas ela aprendera a moderar na amônia para obter a alvura ideal e não rasgar o tecido. A mãe a educara para evitar o encardimento das roupas do marido. O Waldecy não era marido, todavia, entretanto, não obstante, ainda assim.

Sob os vinhedos enrijecidos pela poluição, as crianças do barrio atiravam jatos de água em todas as direções, contentavam-se com os arco-íris empalidecidos, o céu prometia manter-se azul até nove da noite, um ar úmido embolorava o peito. Darlene volta sempre do trabalho. Sim, está sempre voltando do trabalho e esconde o ódio fervente do tapa levado pelo Waldecy no fim de semana, homem que dava tapa na bunda como na cara, humilhando-a sem reconhecimento. Ela garantia que ele agora brincava com o pequeno anel de ouro, o brasão da família e alisava os dentes da boca pequena com a língua da maneira que gesticulava ao assisti-la azeitar a salada e o frango grelhado. Creuza, Edileuza e Marlene não se cansavam de bajular o Waldecy pela educação de cavalheiro, o humor, o jeito sóbrio, tão distinto dos frequentadores do barril. Quem naquelas bandas se dava ao trabalho de abrir a porta do carro para uma mulher? Ou se levantava para ajudar uma dama a sentar-se? A Darlene enxergava os olhos relampejantes das amigas quando o Waldecy comprava uma rosa do camelô florista, torcia o caule espinhoso e encaixava-a na orelha pingada da Darlene, mulher de rosto bonito malgrado a pelugem. Ela não contava a ninguém sobre a intimidade com o sujeito, fazia segredo das inúmeras vezes em que o Waldecy transformara o carro em jaula no estacionamento do supermercado, abandonando-a ao léu com uma fresta minúscula da janela aberta para não asfixiar antes de despelar.

Desde que amigara o Waldecy, Darlene fecha as pálpebras roxas, quase negras, e não dorme. As chinchilas, pequenas almas balbuciantes viajadoras de uma ponta da américa a outra eram alminhas maléficas que mordiam-na corpo inteiro, para acordá-la aos berros e de cara com a porta de vidro fumê do minibar onde o Waldecy guardava o Tesouro. As peles penduradas, as fisionomias do último sofrimento recheando as feições debilitadas: Darlene enfastiava-se do abatedouro. Waldecy chutava-a de súbito nas pernas para que o deixasse dormir. Ela transpirava, indecisa quanto à necessidade do edredom, seguia à cozinha para um copo d’água, o líquido engolido aos goles qual o convívio com o Waldecy, quem, divorciado três vezes, dissera-lhe num daqueles momentos de tapa na cara que se ele encontrasse uma mulher que facilitasse a regularização dos papéis, encheria as malas e a Darlene que olvidasse o Waldecy. Podiam esbarrar na rua que ele não a reconheceria, de propósito, língua no canto do céu bucal e uma risada irônica nascendo de dentes tão miúdos quanto os dos animaizinhos, retratos de natureza morta por detrás da opacidade insuficiente do minibar.

A mãe do Waldecy, a quem Darlene se apresentara por via telefônica, criava as chinchilas, investia na ração enviada e se responsabilizava pelo despacho climatizado das criaturas. A temperatura da quitinete no porão da casa de tijolos descascados e escadas rangentes deveria ser mantida no nível do ambiente natural das chinchilas, de modo que Darlene e Waldecy não dispensavam os agasalhos entre as paredes de gesso branco que o proprietário, o seu Giuseppe, embriagado de grappa no café da manhã e aliciador de garotinhas no barril, se negava a forrar de papel e exigia que a Darlene preparasse cafezinho para ele cada vez que cobrava o aluguel às vésperas do dia do vencimento.

Manhã noturna, as luminárias acesas no porão, Darlene amarra o cinto do roupão de pelúcia, caminha para a cozinha sem não antes enxergar os bibelôs umidecidos, as pessoas e as coisas quase levam susto ao acordar menos o Waldecy dormindo que nem água de poço. Waldecy vislumbrava nos restos precários dos animais a sua fortuna, os sonhos, as nuvens azulinhas. Quer preparar um catálogo fotográfico, convida Darlene e as amigas para o ensaio na Times Square mas, à Edileuza, ele pede que vista um vestido longo, negro para a foto de luxo. Recomenda à Darlene e as outras uma boa maquiagem e jeans, e, Darlene, querida, faça-me o obséquio de um batom discreto e não aquele rosa fúcsia borrado que você tem mania de usar no trabalho, o meu catálogo é direcionado para gente fina, Alexander McQueen coisa e tal. A idéia é aterrissar na Times Square antes que o dia tome forma, evitar o tumulto dos pedestres, pegar os primeiros raios de sol alaranjado que o canal do tempo previu. O Waldecy de fronte ao espelho dá tapinhas na cara com a loção pós-barba old spice, passa o pente no cabelo ralo, não costuma banhar-se na manhã, exala uma mistura de talco e colônia, a pia salpicada de fios atômicos, pasta de dente destampada, toalha largada, Waldecy não perde o hábito como deixa perder os fios de cabelo no chão do lavatório.

Quem diria, ela, Darlene, fotografada no triângulo da Times Square. O Waldecy insistia para que ela parecesse menos rabugenta, ô Darlene, olha para as tuas amigas, sorridentes, abre a boca num sorriso, vai? O Waldecy não dava sossego embora eles levassem a vida fifty-fifty, aluguel, comida, roupas, passeios, tudo dividido pela metade, ela ralava no barril e ainda complementava o dinheiro com serviços de limpeza apesar de odiar faxinar. Isto sem contar a sina do Pedro Augusto, o filho dela internado no hospital da capital, ninguém descobria a doença do menino, a família não cessava de lhe telefonar, Darlene, o menino não cresce, o menino não engorda, o menino não come, aliás, parece sim que está sendo comido por dentro e, ela, o que sabia do Pedro Augusto? Gestara a criança por nove meses, parto normal, bebê normal, amamentado por um ano e daí? Daí que ela precisava ganhar dólar, já completava oito anos, o Pedro Augusto nas fotos, nas telas de computador, as mãozinhas encostadas no vidro para tocá-la, ele a chamava de mãe e senhora, com respeito, aprendera a pedir roupas e tênis, o Pedro Augusto, o menino melhor vestido na cidade pobre à beira do rio das cinzas podre e barrento como na maioria das cidades brasileiras que não se fotografam. O Pedro Augusto tem que estar bem e na próxima semana preciso pinçar as sombrancelhas que entortam a minha testa.

O domingo correu, sessão de fotos, café da manhã no pão nosso, o copo de café com leite cheio de aleluias, a missa das onze, estavam de folga e à toa. Vieram todos para a casa, o Waldecy liderando, prometeu preparar um risoto de carne seca e abóbora que sabia cozinhar melhor do que ninguém, nunca ia para o fogão, porém, quando resolvia vestir o avental era para arrasar com um prato elegante, nada de arroz e feijão, bife, galinha assada. A comida vinha de um jeito na travessa que a Darlene deslembrava os modos de segurar garfo e faca. Acabou que substituiu a carne seca por camarão porque você Darlene não tirou o sal da carne seca, portanto estragando parte dos planos para um almoço magnífico. As meninas o admiravam, Darlene este Waldecy é o teu bilhete lotérico, aposta cheia. Às tantas, o Waldecy zonzo de vinho abre a geladeira das chinchilas, tira um casaco e presenteia a Edileuza. Toma, Edileuza, é teu, em agradecimento pelas fotos de hoje. Nem a Darlene tem casaco de chinchila, ele ousa dizer, olhando-a de esguelha. A Edileuza estala os lábios, muito no cinismo de quem canta para arrancar gorjetas dos homens. Ela acaricia a pele com as mãos, veste o casaco fora de estação, você tem certeza, Waldecy?

Amanhece, amanhece, não pára de amanhecer nesta cidade que aperta as noites como os sapatos espremem os pés e a Darlene desce a avenida estreita da broadway no queens, os dias de inverno se aproximam, a vida fifty-fifty com o Waldecy continua a mesma bosta, o Pedro Augusto não cura, pede a ela que volte e ela não quer ver o menino que nunca viu, não quer largar o marido que não tem, não quer partir de onde não pertence, Tequila on the rocks, a unha comprida do indicador faz o gelo contornar a circunferência do copo, tomava bebida de homem, one shot, many shots, tiro certeiro, vários tiros. Noutro domingo, estivera no confessionário, tocou na perna do padre com o dedo lambuzado de Tequila e podia jurar que girara a circunferência do mundo a seu favor.