Resenhas

Sobre Colisões Bestiais (Particula)res

“Logo na primeira frase, o projecto: “Desde o bosão de Higgs, gente e bestas esbarram-se.” Animais, humanos e acontecimentos: eis o que esbarra, o que colide, o que provoca acidentes.

Muitos bichos — formigas, papagaios. Bichos grandes e pequenos, bichos que andam na cabeça (por cima e por dentro). A linguagem rápida; as frases descrevem, acertam nos eventos observados com olho clínico. Olho que se mexe.

Muitos autores convidados (gentileza da hospitaleira Kátia): Cortázar, Borges, Bolaño, David Foster Wallace e etc.

Mendigos e muchachas subnormais, mulheres que protegem e julgam. Personagens como Juarez, jogador, pornógrafo e muitas coisas — e ainda etc. Humor e sarcasmo, sempre presentes.

A minha amiga Kátia Bandeira de Mello Gerlach escreveu um belíssimo livro: ritmado com a batida que convém à língua; histórias e frases em jazz corrido; jazz alegre. Deixo um exemplo, de “Cuspe no aquário”: “Se me perco nas ruas numeradas, zombam de mim? Os peixes morrem no aquário. Alimento-os nas manhãs. Correm afoitos para engolirem o pó granulado de odor marinho, e à tardinha eles já, já morrem. Por vezes, nascem filhotes e não sobrevivem, solúveis como os grãos. Difícil distinguir mãe e pai; nadam sem expor o sexo, embora corram uns atrás dos outros com ímpeto em momentos espontâneos e certos. Perecem para a minha redenção: um mecanismo medonho nos liga e transcende. Olham-me pela transparência do vidro e reconhecem-me, a mulher perdida nos números, a mulher ¥p¡@.”

Este COLISÕES, de Kátia Bandeira de Mello Gerlach, é um livro insolúvel, ele aí está — alegrando o espaço.”

Gonçalo M. Tavares

 


Palavra por palavra
julho 2015 / Palavra por palavra / Apoiado no abismo sobre o fio de arame
Texto publicado na edição #182
Apoiado no abismo sobre o fio de arame

Por RAIMUNDO CARRERO
Um livro em tudo surpreendente. É assim que podemos tentar definir Colisões bestiais, da brasileira Kátia Bandeira de Mello Gerlach. Uma tentativa de definição (tentativa, pois não existe uma definição muito clara), seria dizer que ele é, ao mesmo tempo, belo e caótico, naquele sentido de um caótico estético, onde o horroroso e o monstruoso se alinham à beleza com tanta sutileza que passam a compor o delicado tecido dessa mesma beleza, erguendo, enfim, uma obra que provoca espanto e inquietação. Afinal, conforme Henry Miller, caos é aquilo que a gente não entende. E nem precisa entender, porque na Arte, beleza não é aquilo que se entende, mas o que se admira, com a força de um vulcão soltando lavas aos nossos pés. No caso deste livro de Kátia, basta observar o título, em si mesmo confuso e caótico, acrescido da palavra Particulares, entre parênteses, cortada no sufixo — assim: Colisões bestais (particula)res —, revelando uma palavra dentro de outra, abrindo caminho para outro título. Ou seja, um título que se desdobra em outros títulos, num jogo de espelhos infinito. Jogo de espelhos que se renova e se revigora para criar um tecido literário labiríntico — não se contentando com aquele textinho pequeno-burguês de paletó e gravata, arrumadinho, miudinho, bonitinho, que se parece muito com toalha de linho posta na mesa do domingo, que só ganha verdadeira beleza e vigor quando jogamos cerveja e vinho sobre ela. Talvez um pouco de feijão e muito de caldo de carne. Para quebrar a indolência e a preguiça do domingo sob os sermões de papai e de mamãe.

É assim que deve ser a literatura: um insulto aos domingos preguiçosos, realizando-se plenamente no risco de atravessar o abismo num fio de arame, como destaca Rubem Mauro Machado na orelha do livro. Aliás, livro que tem, ainda, a quarta capa assinada pelo consagrado Gonçalo M. Tavares, o escritor português muitas vezes premiado na Europa, destacando ser este um belíssimo livro: ritmado com a língua que convém à língua; histórias e frases em jazz corrido; jazz alegre. É um livro insolúvel. Por isso mesmo, destacamos que se trata de um livro rebelde. Um livro que somente as mentes brilhantes podem produzir. Um dos seus textos mais bem realizados é Cuspe no aquário, destacado também por Gonçalo Tavares, de onde podemos pinçar esse curto exemplo:

Se me perco nas ruas numeradas, zombam de mim? Os peixes morrem nos aquários. Alimento-os nas manhãs. Correm afoitos para engolirem o pó granulado de odor marinho, e à tardinha eles já, já morrem. Por vezes, nascem filhos e não sobrevivem, solúveis como os grãos. Difícil distinguir pai e mãe, nadam sem expor o sexo, embora corram uns atrás dos outros com ímpetos em momentos espontâneos e certos. Parecem para a minha redenção: um mecanismo medonho nos liga e transcende.

Em certo sentido, o livro lembra muito História de cronópios e de famas, de Cortázar, pela liberdade da criação, absolutamente solta e leve, sem compromissos com as amarras da narração tradicional, principalmente sem a presença daqueles personagens densamente psicológicos, mas compromissados apenas com a elaboração do texto, em que Kátia se mostra envolvida e firme, fazendo o leitor se deliciar, também envolvido e seduzido, seguindo aquela grandeza que costumo mesmo chamar de sedução do leitor, em um ritmo quase sempre leve e rápido, sem paradas para reflexões, em longos monólogos ou solilóquios. Imagino que a autora deve ser uma leitora voraz do autor argentino, de quem herdou a capacidade de brincar com personagens e situações já reveladas em contos do mestre. Sem dúvida, a revelação de uma autora criativa e renovadora.

Percebam, então, que se trata de um texto muito bem escrito, mas sem esse arrumado de moçoilas ao vento, de sapatinhos arrumados em calçadas sem buraco. É preciso acreditar sinceramente na literatura para escrever um livro desses. Tão valente e tão forte, pedra de abismo que se destaca em meio à avalanche. Um nome para não esquecer — Kátia Bandeira de Mello Gerlach. Por favor.

Katia_Bandeira_Mello_Colisoes_Bestiais
Kátia Bandeira de Mello Gerlach
Oito e Meio
150 págs.

RAIMUNDO CARRERO

É escritor. Autor, entre outros, de Seria uma noite sombria e Minha alma é irmã de Deus. Vive no Recife (PE).

Sobre Jogos (Ben)ditos e Folias (Mal)ditas

“O leitor que degusta os deliciosos e riquíssimos contos deste livro de Katia Gerlach provavelmente vai também comprar pão na padaria, ir à uma casa de campo, voltar à infância e viver experiências nunca dantes vividas, tudo sem sair do lugar físico.É que o corpo aparentemente inerte está, na verdade, flutuando por passagens e paisagens que lhes dão a possibilidade da presença simultânea. A física quântica pode lhe provar isso. E é exatamente com as vicissitudes do mesmo espaço-tempo que Katia magistralmente joga em seus contos.Seus personagens, ordinários para o cotidiano, mas extremamente viajantes e profundos para a literatura, nunca estão no mesmo lugar, mesmo quando a ação parece única. O fio condutor de suas histórias não é reto, nem se apega à lógica, assim como nosso cérebro e nossas vivências. Mas o trunfo de Katia, e sua assinatura mais peculiar, é brincar com o vaivém de modo a não fazer o leitor perder a história de vista.Katia transcende o cotidiano e conecta a alma humana ao concreto da rua, que acaba pulsando, como neste trecho “Vera morava no batimento retangular que cobria o quarteirão inteiro, onde tombavam pedras sobre pedras como condenação”. E dá de presente aos seus personagens a opção de estar sem estar, esta que todos nós desejamos durante as formalidades diárias: “Sem cumprimentá-lo, a militante quis fazer-se transparente na sua intimidade”.As construções narrativas aqui são poéticas sem serem pedantes; são simples sem serem simplórias e mostram o domínio literário de uma artista que não só escreve com refino espontâneo, como também nos presenteia com ilustrações alegres e intensas.Katia Gerlach respira literatura e sua literatura exala muitas vidas. São vidas que saltam das folhas deste livro, as quais, sem pestanejar, convido ao leitor inalar, porque estes contos, com crônicas enxertadas, engrandecem nossos espíritos e nos dão asas que quebram as parcas linearidades do ilógico cotidiano.Para o Ben e para o Mal. ” (Thiago Mourão )

Thiago Mourão é biólogo, escritor e pocket poeta.


LEITOR EXIGENTE por Sílvia Schmidt : “Ver supõe a distância, a decisão separadora, o poder de não estar em contato e de evitar no contato a confusão. Ver significa que essa separação tornou-se, porém, encontro. Mas o que acontece quando o que se vê, ainda que à distância, parece tocar-nos por um contato comovente, quando a maneira de ver é uma espécie de toque, quando ver é um contato à distância? […] [Então] o olhar é arrastado, absorvido num movimento imóvel e para um fundo sem profundidade. O que nos é dado por um contato à distância é a imagem, e o fascínio é a paixão da imagem. Maurice Blanchot. “Parler, ce n’est pas voir” (1960). In- L’Entretien infini. op.por De semelhança a semelhança Georges Didi-Huberman.
E assim foi que neste- fascínio- pelas imagens de Colisões Bestiais eu me mantive- firme- porque essas colisões-partículas-em expansão também são particulares&Bestiais. Uma leitura para artistas e escritores críticos excessivamente exigentes, porque não é linear porque não é gratuita porque não é reconhecível no sentido do formal porque exige dicionário à mão. O desconforto do inusitado no ideológico e no cultural humanista. Há de se estar nestas- particularidades- confortavelmente atento, num corpo imóvel , lentes afinadas, nutridos no corpo, porque estas colisões exigem- o controle máximo do corpo- imóvel. Leitura que exaure porque quer mais&demais: numerologia à parte em física quântica aplicada. Precisei ler Cortázar e preciso ir urgentemente a Bolaño, Borges e David Foster Walllace para novas possibilidades de compreensão no que para a autora são estes universais- absolutamente familiares. Que alegria ter nesta obra a chance deste fascínio imagético.
Que imagem é está? Santo Dio- perguntei-me aturdida em :
“desordem na Via Pública: combate sol a pino num céu de dragões
Dia onze de mês nove.
O Caranval histórico de 2666.”
Eu leitora- dentro deste mergulho de beleza estética–o que é esta ,apenas esta imagem- -o fundo em que a Literatura é?
Esta obra que pra mim segundo o crítico Blanchot – é um livro(conto? romance em stopmotion ?) mas antes um livro -“por vir vasto como a noite”.
Portanto para leitores incansáveis – de uma autora que; “ Escrevo em manifesto de resistência( o meu idioma vive no pedestal da extinção) de um Desconhecido”- in Nota Epistolar. Colisões BESTIAIS(Particula)res. Kátia Bandeira de Mello Gerlach . editora Oitoemeio. Rio de Janeiro. 2015 #vápreparad@.